segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Quadrinhos: Monstros – A Invasão de Santos

Eu já tinha ouvido falar dessa nova HQ do Gustavo Duarte, mas ainda não havia tido a oportunidade de dar uma olhada. Bom, recentemente eu estava passando na frente de uma Fnac e resolvi entrar e passear um pouco nas seções de livros e quadrinhos. E não é que a HQ estava na estante!  

Monstros - Gustavo Duarte (Estante da Fnac)
Na história, Santos (cidade litorânea de SP) está sendo invadida por monstros, tudo no maior estilo Godzilla e catástrofe japonesa. Simples, divertido e muito gostoso de ler. A linguagem utilizada por Gustavo Duarte é simples e, ao mesmo tempo, bastante interessante. Em momento algum ele utiliza algum balão e não há nenhuma fala no decorrer de todas as páginas, mas isso não torna a experiência enfadonha, muito pelo contrário.

Monstros - Imagem Retirada do GustavoDuarteBlog
É possível perceber várias referências e, em alguns momentos, o que me pareceu ser uma brincadeira com os grandes clichês de filmes de monstros. Então fica aqui a minha recomendação. Deixo também o site do autor: GustavoDuarteBlog.
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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

As Drogas no Cinema Pt.2

Na Parte 1 eu falei sobre os filmes dentro dos gêneros comédia, romance e policial que abordam o tema das drogas ou pelo menos em que ela está presente. Mas os melhores filmes sobre o assunto são os do gênero Drama. No primeiro post eu não adotei o formato de lista, mas farei isso neste.

Réquiem para um Sonho (Requiem for a Dream - 2000):


Nesse filme nós acompanhamos a trajetória de pessoas viciadas, entre elas, uma mãe e o filho. O filho se droga diariamente e mãe, complexada com o próprio peso, entra nesse mundo por consequência de um médico negligente e imprudente que lhe receita medicamentos para emagrecer, mesmo sem examiná-la. O filme apresenta de forma crua a degradação das personagens e o rumo que elas tomam. 



Semelhante ao anterior, esse também mostra a trajetória de alguns jovens que, para se afastarem de suas vidas tediosas, passam a usar heroína. Ainda mais pesado que Réquiem para um Sonho, o filme expõe a forma como as personagens se tornam escravas de seus vícios. Para eles, todo o resto passa a ser apenas resto, até mesmo o bebê de uma viciada. 



Traffic - 2000:

Dirigido por Steven Soderbergh, Traffic explora o mundo das drogas através de vários ângulos, intercalando histórias que ocorrem e se desenvolvem em contextos diferentes. Em cada uma delas, uma fotografia característica. Vemos o funcionamento do tráfico, a corrupção de policiais e a vida de um juiz que tenta desesperadamente salvar a filha do mundo das drogas. Soderbergh ganhou o Oscar de Melhor Direção por este filme. 

Despedida em Las Vegas (Leaving Las Vegas - 1995):

Ben Sanderson, magistralmente interpretado por Nicolas Cage, é um alcoólatra decidido a beber até morrer, literalmente. Um grande drama que merece ser assistido. 






Half Nelson – Encurralados (Half Nelson - 2006):

Ryan Gosling, em sua primeira indicação ao Oscar, encarna um professor de uma comunidade pobre no Brooklyn. Ao mesmo tempo em que se esforça para manter seus alunos interessados e participantes, ele se sente desiludido e frequentemente se entrega às drogas. As coisas tomam um rumo diferente quando uma de suas alunas o encontra drogado no banheiro da escola. 


Geração Prozac (Prozac Nation - 2001):

Elizabeth Wurtzel (Christina Ricci) é uma jovem depressiva que enfrenta dificuldades em se relacionar com a própria família. As drogas acabam sendo seu refúgio ou uma espécie de desabafo descontrolado, mas quando a situação parece insustentável, a garota passa a se consultar com a psiquiatra Diana Sterling (Anne Heche), que lhe receita o Prozac.



Meu Nome Não é Johnny - 2008:

Jovem carioca de classe média, João Estrella (Selton Mello) acaba se envolvendo com drogas e, de forma gradativa, crescendo como traficante nesse mundo. Imediatista e fascinado com o enriquecimento rápido, ele se afunda nesse mundo e perde tudo quando o inevitável (considerando a forma como ele vivia) acontece. 



Existem muitos outros filmes que retratam muito bem essa realidade, mas esses são os que mais me agradaram. Fique à vontade para dizer o que pensa deles e apontar quais outros também deveriam estar na lista.
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terça-feira, 6 de novembro de 2012

Livro Comentado: A Tormenta de Espadas Pt.4


[Muitos Spoilers do 3° Livro. Leia a Parte 1, Parte 2 e Parte 3]

Então finalmente cheguei ao fim do terceiro livro. Muitos haviam me dito que o desfecho era surpreendente e realmente o é. Mas já adianto que a volta da Catelyn do mundo dos mortos não me surpreendeu tanto assim. Depois de ver Beric Dondarrion executando a mesma proeza, suspeitei que algo do tipo pudesse acontecer.

A fuga do Tyrion, com o auxílio de Jaime, já era previsível. O autor não fez nenhuma questão de fazer disso uma revelação. O que não esperávamos era o que ocorreria durante esse processo de fuga. Descobrir, pela boca de Jaime, que sua primeira esposa na verdade não era uma prostituta foi uma punhalada nas costas do personagem. A revelação ferveu seu sangue a ponto de fazer com que desviasse do caminho e fosse até o quarto do pai, o responsável por esse que foi um dos eventos mais traumatizantes de sua vida.

Ao chegar ao quarto, em busca de Tywin Lannister, foi Shae, sua amante, quem ele encontrou. Fiquei com pena do seu destino, afinal ela apenas preservou a própria vida ao testemunhar contra o duende, embora pudesse ter maneirado nos detalhes comprometedores acerca da relação que possuíam. Agora a morte realmente relevante para o desenvolvimento de toda a trama foi a de Tywin, que não estava no quarto, mas estava na latrina. Com uma besta, o anão tirou a vida do pai enquanto ele defecava.

Será que o duende poderá agora assumir a posição de Senhor de Rochedo Casterly, uma vez que ela é sua por direito? Sua condenação afeta isso? Quem vai governar Porto Real, Cersei? Todas essas incógnitas e muitas mais ficaram para os próximos livros. [Esse parágrafo ficou parecendo final de capítulo de novela mexicana.]

Falando do livro como um todo, vejo-o como o melhor dentre os três primeiros. É o mais intenso e com mais reviravoltas. Também conta o fato de que é o livro em que meu personagem favorito, Tyrion, foi mais explorado. Não apenas ele, como os demais também. Jaime é um exemplo disso; em A Guerra dos Tronos e A Fúria dos Reis, estivemos sempre distante da mente do Regicida. Bastou que víssemos as coisas a partir de sua perspectiva para que mudássemos nosso julgamento sobre ele. Suspeito que veremos algo parecido com a Cersei. Eu a considero detestável, óbvio, mas quem sabe isso não mude um pouco depois de entender como funcionam as engrenagens que a movem.

Na outra extremidade do mapa, Stannis Baratheon captura Mance Rayder (o Rei-para-lá-da-Muralha) e dispersa os selvagens, enquanto Jon Snow se torna o Senhor Comandante do Castelo Negro. Um pouco de satisfação em meio a tantos horrores. Mas o que são os selvagens além de pessoas como as outras e que buscam por uma vida melhor? Será justo mantê-los à mercê dos Outros? Como George Martin não é dado a maniqueísmos, eu acredito que ele também irá mais a fundo nesse lado.

No mais, ouvi algumas pessoas dizerem que os livros quatro e cinco não conseguem superar os anteriores. Se isso for verdade, com certeza farei algum post por aqui falando e tecendo minhas próprias críticas. Agora fique à vontade para deixar a sua opinião e suas expectativas. 
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terça-feira, 30 de outubro de 2012

O Bom Cinema de Woody Allen Pt. 1

Não é somente de maravilhas que o cinema de Woody Allen vive. Aliás, poderia fazer vários posts apenas sobre os fiascos. Ainda assim, Allen dirigiu filmes que se tornaram clássicos e mesmo que hoje ele tenha dificuldade em resgatar aquela genialidade de outrora, continua acertando a mão vez ou outra. Deixo abaixo uma lista com os filmes que considero melhores. 


Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall - 1977):

Em minha opinião esse é o melhor filme de Woody Allen. É também o filme que lhe deu mais projeção. Annie Hall se destacou desde o início por sua singularidade, linguagem original e pela marcante ironia e sagacidade do diretor. Na história um humorista pessimista e incorrigivelmente sarcástico, interpretado pelo próprio Allen, embarca num novo relacionamento enquanto ainda está superando o término do último.  Inteligente, interessante, engraçado e uma verdadeira obra prima do cinema. Ganhador do Oscar de Melhor Filme, Diretor, Roteiro Original e Atriz (para Diane Keaton).

Manhattan - 1979:

Aqui Woody Allen novamente interpreta o protagonista. Pode ser que eu esteja enganado, mas o diretor sempre encarna o mesmo personagem (que suspeito seja ele mesmo), independente do contexto ou se é o protagonista ou não. Isso não chega a incomodar, com exceção dos filmes em que ele faz um auto plágio descarado de tudo o que já criou antes, como é o caso do péssimo Scoop - O Grande Furo. Quase tão bom quanto o anterior (Annie Hall), Manhattan mostra uma Nova York bastante relevante para  história e que não serve apenas como cenário ou plano de fundo, mas sim como uma personagem à parte. A trama gira em torno de relacionamentos conturbados e inconstantes, explorados de forma magistral.

A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo - 1985):

Nesse filme Woody Allen atinge o máximo da metalinguagem. Esse é um dos recursos muito utilizados por ele; já havíamos visto isso em seus filmes anteriores e foi algo que continuou sendo usado nos filmes posteriores. Na história, que se passa na época da Grande Depressão americana, acompanhamos a vida de Cecília (Mia Farrow), uma mulher submissa ao marido e que aceita o desrespeito e completa falta de companheirismo do mesmo. O alívio para esse mar de mediocridade e insatisfação que cerca a personagem por todos os lados é o cinema. É em frente da grande tela que ela encontra refúgio para a sua realidade. Tudo muda quando o protagonista de um filme resolve sair da tela para conhecer sua grande fã.

Tudo Pode dar Certo (Whatever Works - 2009):

Tenho um post sobre esse filme e você pode ler “aqui”.  Essa é outra obra em que a metalinguagem é muita utilizada. O protagonista, Boris (Larry David), mais de uma vez se levanta de onde está e caminha em direção à câmera, conversando com o público. Na primeira vez em que faz isso, as personagens ao seu redor o olham com estranheza. Um menino na rua chega a gritar “Mãe, aquele homem está falando sozinho!”. Boris é um físico frustrado com a vida e com a insignificância e efemeridade de tudo. Inclusive tenta se matar num surto de crise existencial. Concordo com ele quando diz que a inevitabilidade da morte é inadmissível. O interessante do filme está em ver como as pessoas ao redor do personagem vão se transformando a partir de um evento aparentemente insignificante, mas que foi o catalisador de tudo.

Meia Noite em Paris (Midnight in Paris - 2011):

Exemplo perfeito de que uma comédia romântica pode sim ser boa. Eu já tinha ressaltado isso quando falei do filme 500 Dias Com Ela, mas é sempre bom relembrar. Partindo de uma premissa simples, o filme nos apresenta Gil (Owen Wilson), um homem insatisfeito com o seu trabalho e com a época em que vive. Não seria um filme de Woody Allen se não houvesse uma pitada de nonsense, então o momento “nem fude#%@” é quando ele é convidado para entrar num carro, aceita a carona e é transportado para outra Paris. Gil se depara como várias figuras renomadas, como Salvador Dali, Scott e Zelda Fitzgerald, Cole Porter, Ernest Hemingway entre outros. Encerro essa Parte 1 recomendando a análise da roteirista Tatiane de Mello. 
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terça-feira, 23 de outubro de 2012

Livro Comentado: A Tormenta de Espadas Pt.3


[Muitos Spoilers do 3° Livro. Leia a Parte 1 e a Parte 2]

No post anterior eu concluí falando da morte de Robb e Catelyn e agora prossigo com os acontecimentos que preencheram as páginas dali em diante. Acabo de ler a página 729 e fechei o livro com a alma balançada, sem energia para continuar lendo. Isso sempre acontece comigo nos momentos mais tensos da história, então dou um tempo e depois continuo de onde parei.

Quero começar com a morte de Joffrey, que foi de longe um dos momentos mais maravilhosos de todo o livro. Quando capítulos do Tyrion e da Sansa começaram a se intercalar, eu sabia que algo estava prestes a acontecer. Já disse antes que o Tyrion é meu personagem favorito, portanto me condoí com a humilhação que ele passou nas mãos de Joffrey, que bêbado, fez dele seu criado, ridicularizando-o em frente a todos.

Na própria festa de casamento o jovem rei criou todo um espetáculo destinado ao tio, com o objetivo de envergonhá-lo. Desde anões montados em porcos e cães, até obrigá-lo a lhe servir vinho, como se fosse um criado. Assim que Joffrey bebeu o vinho, enfiou a torta de pombo na boca e começou a tossir, vi que ali podia ser o fim de um dos personagens mais odiados de toda a minha bagagem literária. Pensei comigo: “O Martin não vai me dar esse prazer...”. Mas então veio aquela linda e detalhada descrição de como o rei, no desespero de conseguir respirar, rasgou com as mãos a pele, carne e músculos de seu pescoço. Transbordando em sangue.

Como eu disse acima, quem serviu o vinho foi o Tyrion, então a suspeita de envenenamento inevitavelmente cairia sobre ele. Mas não bastasse isso, o maldito ainda morreu apontando para o tio. E tem o agravante que foi a fuga da Sansa, sua esposa, outra com incontáveis motivos para querer Joffrey morto. Cersei então ordenou que Tyrion fosse preso, julgado e morto. Conhecendo o sadismo do autor, já me preparei para o que viria.

Enquanto o anão aguarda por seu julgamento, descobrimos que o arquiteto da morte do rei na verdade foi Petyr Baelish, também alcunhado de Mindinho. É ele quem controla Dontos, homem que até então julgávamos como o único elo entre Sansa e sua possível fuga. Fica difícil saber quais são as reais motivações de Baelish, uma vez que sua personalidade multifacetada nos impede de nutrir qualquer confiança pelo personagem.

Do outro lado do mapa, finalmente vemos os selvagens caindo com toda a sua força sobre a muralha. Liderados por Mance Rayder, milhares de homens e outras criaturas se esforçam para quebrar a principal barreira entre eles e o Norte: a Patrulha da Noite. O mais interessante é acompanhar tudo isso através dos olhos de Jon Snow, personagem que amadureceu enormemente entre o primeiro livro e este.

Há também o retorno de Jaime, que logo ao chegar a Porto Real se depara com o assassinato do filho e com uma Cersei que o ignora. Sem o respeito de seus irmãos da Guarda Real, ele se esforça para passar uma imagem de força, mesmo se sentindo impotente sem a sua mão da espada.  A arrogância e prepotência de outrora agora não encontram lugar, ao menos não da mesma maneira, dentro de si. O que lhe resta agora? Essa incógnita torna o mundo do Lannister muito mais interessante para o leitor.

Voltemos agora ao meu personagem favorito e ao evento que balançou minha alma (quanto exagero, não?), tal como informei lá no primeiro parágrafo. Depois de muitas rodadas de humilhação, sendo obrigado a ouvir as testemunhas da irmã declararem calúnias contra ele, Tyrion exigiu julgamento por batalha, tendo como campeão (homem que lutará por ele) o Príncipe Oberyn,  conhecido como Víbora Vermelha. Ficamos bastante apreensivos com a confiança exagerada que Oberyn demonstra em si mesmo. Vocês acreditaram que ele ganharia a luta? Mesmo quando o príncipe espetou Gregor Clegane (o campeão de Cersei) no chão, com sua lança, eu desconfiava fortemente que alguma reviravolta colocaria tudo abaixo. E foi o que aconteceu. Mesmo abatido, Clegane puxou a Víbora pelas pernas e derrotou-a com as próprias mãos. O julgamento chegou ao fim e não foi nada favorável a Tyrion. Torço para que o seu irmão, Jaime, intervenha de alguma forma.

No próximo post, que será o último dessa série, comentarei o desfecho do livro e farei um apanhado geral. Fique à vontade para comentar e dar a sua opinião. Você também pode acompanhar o blog através da nossa página no Facebook e Google +.


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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Deus, um delírio – Richard Dawkins

“Não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas nele?”

Richard Dawkins é um intelectual britânico e ferrenho defensor do ateísmo. Nasceu em Nairóbi, cresceu na Inglaterra e formou-se e lecionou na Universidade de Oxford. Já publicou outros livros célebres como O Gene Egoísta, O Relojoeiro Cego, A Escalada do Monte Improvável e vários outros. 

A frase que abre este post foi retirada do livro “O Guia do Mochileiro das Galáxias” e também está no livro de Dawkins, como homenagem a Douglas Adams.

Deus, um delírio (The God Delusion) foi escrito com o objetivo de contestar princípios religiosos e instigar um senso crítico naqueles que creem no criacionismo. Ou seja, é um livro assumidamente pró-ateísmo e, também, com um posicionamento bastante firme contra as religiões, acusando as mesmas de serem prejudiciais para a humanidade.

Um dos méritos do livro está na linguagem extremamente simples e na sua didática que aborda ponto-a-ponto os princípios das religiões, refutando ou apontando falhas. Outro ponto interessante está na atenção que é dada a desmistificação de ateísmo, que ainda hoje é tido como negativo e ligado ao satanismo. Então o autor fala bastante sobre o preconceito que os ateus sofrem e apresenta dados que confirmam isso.

Trecho do livro (Clique na imagem para aumentar)
Faz bastante sentido, por exemplo, a analogia que é feita entre o ateísmo e a homossexualidade, não que haja alguma relação direta entre as duas coisas (não há), mas muitos ateus escondem suas posições ideológicas e ausência de crenças religiosas. Muitos fazem isso por medo de possíveis represálias e de não serem aceitos pela família ou amigos. Portanto, um termo que o autor usa mais de uma vez é o “sair do armário”, referindo-se a esses ateus que têm medo de se assumirem como tais.

Para Dawkins, um dos grandes problemas dos ateus está na sua falta de organização. Ele até ressalta que existem mais ateus do que alguns grupos específicos de religiosos, como o dos judeus, mas ao contrário destes, os ateus se comportam de forma muito independente, sem formar uma massa capaz de falar por si própria e se defender.

Trecho do livro (Clique na imagem para aumentar)
Agora o que realmente gera polêmica no livro é a posição adotada pelo autor, que encara toda e qualquer religião como sendo um câncer para a sociedade. É traçado um paralelo entre conservadorismo, pensamentos retrógrados, fanatismo, violência, preconceito, discriminação etc. e a religião. Pretende com essa postura abrir os olhos dos que acreditam e seguem uma religião por pura inércia. Daqueles que foram criados numa religião X e nunca pararam para questionar.

De uma forma ou de outra, sendo religioso ou não, Deus, um delírio é um livro que vale a pena ser lido. Mesmo que o leitor discorde do que é dito. A capacidade de debater assuntos diversos e tolerar pensamentos divergentes sempre foi muito negligenciada. Abrir a mente para novos horizontes pode ser algo positivo, nem que seja apenas para aumentar o próprio arcabouço teórico.
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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Sandman – A Genialidade de Neil Gaiman

Não sou um leitor assíduo de HQs (Histórias em Quadrinhos) e conheço pouco sobre esse universo, mas em relação a Sandman, confesso que fui fisgado pelas dezenas de recomendações e também referências em livros, filmes e séries. Quem é esse tal de Neil Gaiman? Será que Sandman é realmente tão bom assim? Com essa curiosidade, comecei a ler algumas edições (no total são 75) e logo de cara a graphic novel me conquistou. Então esse post é para quem está na dúvida se deve ler ou não, para quem nunca ouviu falar e para aqueles que só precisam de um empurrãozinho.

Sandman é uma HQ criada por Neil Gaiman; nela nós conhecemos Morpheus, 
rei do Sonhar, também conhecido por outros nomes, como Sonho, Sandman, Lorde Moldador etc. É uma história em quadrinhos destinada ao público adulto, recheada de cultura (não apenas Ocidental) e singularidades. A palavra “clichê” não encontra muito espaço nessa obra, que possui a ótima característica de nos surpreender e manter interessados.
Arco - Estação das Brumas (Edições 21-28)
No primeiro arco, Prelúdios e Noturnos (Preludes & Nocturnes), somos apresentados a um ser poderoso que foi aprisionado por engano. O captor, um mago, pretendia aprisionar a Morte, mas quem foi capturado foi seu irmão mais novo, Sonho. Setenta anos se passam até que ele consiga se libertar dessa redoma de vidro em que estava preso. Acompanhamos daí em diante o seu retorno a Sonhar (seu reino) e sua busca pelas ferramentas que lhe foram roubadas.

Arco - Prelúdios e Noturnos (Edições 01-09)
Morpheus não é o protagonista em todas as edições. Em muitas delas, aliás, sua presença é apenas secundária, dando espaço a outras personagens que são exploradas e desenvolvidas. Os acontecimentos não se fixam num tempo específico, muitas vezes retrocedendo dezenas, centenas ou até milhares de anos.

Num arco muito interessante chamado Terra dos Sonhos (Dream Country), o autor nos revela a verdadeira história por trás de William Shakespeare. E não é a única vez em que figuras históricas participam das tramas. Otávio Augusto (imperador romano), Marco Polo e outros nomes famosos também são utilizados por Gaiman.

Arco - Prelúdios e Noturnos
Uma intensa ligação com o onírico permeia todos os cantos do universo de Sandman, o que confere uma liberdade tremenda ao autor, que não negligencia a possibilidade de forçar ao máximo sua criatividade. Num conto independente chamado Um Sonho de Mil Gatos (A Dream of a Thousand Cats), uma gatinha domesticada se junta a outros gatos para ouvir o discurso de uma felina que se lamenta pela morte de seus filhos, causada por humanos, e que diz que a existência dos gatos nem sempre foi assim. Que houve uma época em que humanos eram servos dos gatos e que as coisas podiam voltar a ser assim, bastando para isso que gatos suficientes sonhem o mesmo sonho. “Sonhem o mundo. Não esta sombra pálida da realidade. Sonhem o mundo como ele realmente é”.
Um Sonho de Mil Gatos (Edição 18 - Arco: Terra dos Sonhos)
Dentre os treze arcos de Sandman, um dos mais aclamados e premiados é o Estação das Brumas (Season of Mists), no qual Morpheus precisa travar uma guerra contra Lúcifer, governador do inferno, para resgatar uma antiga amada. Imagine a reação de todos quando, no auge da tensão, Lúcifer simplesmente... Óbvio que não vou revelar o que acontece! Afinal a intenção aqui é fazer com vocês leiam.

Termino então deixando algumas análises, incluindo uma sabatina realizada com Neil Gaiman:

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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Prometheus – Percepção Pessoal Pt.3

Leia a Pt.1 e a Pt.2 [Spoilers abaixo]

Na primeira parte dessa série de posts eu falei sobre a trama de Prometheus, na segunda parte eu falei sobre incógnitas e peculiaridades; agora nesta terceira parte abordarei as personagens e as incongruências.

Dentre as personagens do filme, quatro são realmente relevantes: David, Elizabeth Shaw, Charlie Holloway e Meredith Vickers. Shaw e Holloway, o casal do filme, representam dois pontos de vista bastante distintos, com a primeira se apegando a seus princípios religiosos, enquanto que o segundo, à razão, mas essa dicotomia não é muito intensa e não existe apelação para nenhum dos dois lados.

Elizabeth Shaw e Charlie Holloway
É possível traçar um paralelo entre Prometheus e O Oitavo Passageiro, no que se trata da presença feminina. É bastante clara a intenção do diretor em ressaltar a força de Elizabeth Shaw, tal qual fez com Ellen Ripley. Isso é mostrando em diversos momentos, tanto na sua busca incansável por uma resposta, quanto em suas atitudes e comportamento. Um dos momentos mais tensos é justamente quando a personagem, com uma criatura prestes a eclodir de seu corpo, faz todo o necessário para retirá-la.

Elizabeth Shaw
Já sobre o seu parceiro, o cientista Holloway, não o vejo como contraditório, diferindo assim da avaliação de alguns. Ele não buscava apenas uma civilização alienígena, mas também um contato; algo transcendente. Então é compreensível que tenha se decepcionado ao encontrar os seus deuses (os “engenheiros” da raça humana) mortos.

Meredith Vickers, bem interpretada por Charlize Theron, encarna o pragmatismo da empresa que representa: a Weyland Corporation. Mas sua participação perde um pouco do brilho quando se releva como a filha de Peter Weyland, o homem que dá nome a companhia e que financia tudo.

Além de Elizabeth Shaw, quem também se destaca dos demais é o androide David, do qual tratei brevemente na Pt.1. Embora seja um fantoche de Peter Weyland, o robô fala sobre liberdade, mesmo que diga não estar familiarizado com “querer” qualquer coisa ou possuir desejos. “Todos não querem a morte de seus pais?”, diz ele, referindo-se a Weyland, seu titereiro. Um personagem paradoxal do início ao fim, sem deixar de ser intrigante.

Os pontos falhos estão principalmente em personagens mal construídos, como é o caso do biólogo e do geólogo, que demonstram comportamentos que extrapolam qualquer possibilidade de suspensão de descrença. Como pode um biólogo, num mundo diferente e aparentemente hostil, brincar com uma criatura claramente ameaçadora, como se a mesma fosse um filhote de labrador? Foi um clichê dispensável, sem nexo e que não contribuiu em nada para o desenvolvimento do filme.

Milburn, o biólogo
Dos deslizes, o mais difícil de acreditar foi o ato de altruísmo do capitão da nave Prometheus, que junto com seus tripulantes, abriu mão da própria vida para destruir a nave alienígena. O estranhamento é inevitável, uma vez que em momento algum essas personagens foram mostradas de uma maneira que explicasse tal desprendimento.

Mesmo com defeitos, mesmo que em alguns momentos a inteligência de quem assiste ao filme seja subestimada, ainda assim o resultado final é positivo. E sobra bastante espaço para que haja uma continuação, que é o que de fato ocorrerá.

Quero encerrar recomendando algumas outras análises interessantes:

·        ·         NerdOffice - Nerdologia: Prometheus
·        ·        Omeleletv - Cinco Perguntas Com Spoilers
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terça-feira, 25 de setembro de 2012

Prometheus – Percepção Pessoal Pt.2

Leia a Pt.1 [Spoilers abaixo]

No post anterior eu falei sobre as motivações que levaram os humanos a um lugar tão distante no espaço e discorri brevemente sobre o personagem David, o androide. Agora apontarei os principais pontos que fazem de Prometheus um filme acima da média. 


A curiosidade e o desejo de conhecer as próprias origens norteiam a busca empreendida pelas personagens do filme. São essas duas características que nos mantêm atentos até o desfecho. Mas a incógnita em relação a nossa origem é respondida logo no início, quando vemos um alienígena se sacrificando para que de seus genes surja vida no planeta. Então a questão central não é mais “como?”, mas sim “por quê?”. Por que fomos criados?

Num momento bastante interessante, no qual o cientista Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) se questiona sobre o motivo da criação dos humanos, David pergunta: “Por que você acha que o seu povo me criou?”. A resposta do cientista à pergunta do androide é simples: “Nós o criamos porque nós podíamos”. Essa resposta é o mais próximo que chegamos das razões da nossa existência, respondida pelo próprio humano. David então encerra com a seguinte interrogação: “Consegue imaginar o quanto decepcionante seria ouvir o mesmo do seu criador?”.

Charlie Holloway e David
Esse questionamento central é colocado em segundo plano, dando lugar a outro. Quando os tripulantes chegam à lua LV-223 e desembarcam, logo encontram uma grande construção que obviamente foi criada por algum ser inteligente. Dentro dela eles se deparam com os “engenheiros”, mortos há dois mil anos. A construção se revela uma nave, com uma carga letal: as criaturas que vimos nos quatro filmes da saga Alien. O mais assustador é que o robô David descobre que a nave tinha a Terra como destino. Os “engenheiros” pretendiam colocar um fim à própria criação. Por quê?

Construção Alienígena na lua LV-223
Uma coisa que não pode ser ignorada são as artes encontradas nas paredes do recinto onde parte da carga letal se encontra. Que arma é essa que inspira artes que parecem venerá-la? Na imagem abaixo vocês podem ver a criatura que conhecemos simplesmente como “alien” retratada de forma grandiosa. Que relação os engenheiros possuem com ela? Terá ela realmente sido criada por eles?

Arte na parede da nave
Quando encontram um dos engenheiros ainda vivo, em estado de hibernação, e o acordam, a reação violenta do mesmo é bastante compreensível, considerando que ele hibernou durante dois mil anos, que na última vez em que esteve acordado os humanos ainda lutavam com espadas e que agora de repente eles estavam na sua frente, em outro mundo, sem esquecer que havia uma mulher histérica gritando, um homem armado que inclusive chegou a machucá-la e um idoso caindo aos pedaços querendo saber como enganar a morte. Eu também teria saído dando pancada em todo mundo.

Agora convenhamos que nada justifica a incompetência desses engenheiros. Eles conseguiram ser exterminados pela própria arma duas vezes. Tanto nesta lua LV-223, quanto no planeta LV-426. É como se a bomba de Hiroshima tivesse caído em Washington e a de Nagasaki em Nova York.

Na terceira e última parte dessa série de posts sobre Prometheus explorarei o comportamento das personagens, as incongruências na história e o desfecho do filme. Fiquem à vontade para comentar, criticar e expor suas opiniões.

Leia a Continuação: Prometheus – Percepção Pessoal Pt.3
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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Prometheus – Percepção Pessoal Pt.1

[Alguns spoilers]

Um dos filmes mais aguardados do ano, Prometheus chegou aos cinemas gerando polêmica e trocadilhos como “Prometheus, mas não cumprius”. A reação inicial que pude perceber em parcela significativa das pessoas foi a de desapontamento. Acredito que parte desse desapontamento se deve a uma expectativa muito alta ou mal direcionada; já até escrevi como expectativas podem estragar um filme. Leia aqui.


Sem delongas, já adianto que gostei muito do filme, por mais que ele possua falhas e incoerências, sobre as quais falarei no próximo post. Dentre os motivos responsáveis pela minha percepção, destaco dois: em primeiro lugar, não sofri influência do monstro da expectativa. Eu não esperava absolutamente nada do filme. Em segundo lugar, o filme não tem grande ligação com os quatro anteriores, com exceção do universo ao qual todos pertencem. E esse segundo aspecto foi o mais importante para mim. Tinha receio de ver uma repetição de Alien - O Oitavo Passageiro ou então de seus sucessores.

Expus a minha percepção sobre a Tetralogia Alien em outro post: “Quadrilogia Alien – Percepção Pessoal”. Lá vocês podem ler a minha opinião sobre a saga iniciada por Ridley Scott. E por falar nele, Scott é o diferencial desse prequel. De todos os filmes da saga, ele só dirigiu o primeiro, de 1979. Então uma das causas de tanta euforia foi exatamente o seu retorno à direção.

Como eu disse, o filme foi vendido como sendo um prequel, ou seja, como prelúdio. E de fato, pois os acontecimentos do filme se passam em 2089, enquanto que no O Oitavo Passageiro, em 2122. Mas a ligação entre um e outro param por aí e o que vemos é uma obra com foco diferente, no tanto que só nos últimos minutos do filme nós vemos o alien com o qual estamos habituados.

Vamos então ao que interessa: Prometheus (que é o nome da nave espacial utilizada no filme) já se inicia de forma bastante interessante, no que indica ser a explicação da origem da vida na Terra. Um alienígena com feições humanas ingere uma substância que o faz se despedaçar e cair na água. Logo em seguida, através de seu material genético, inicia-se um processo que culmina na origem da vida no planeta.

Alienígena que se sacrifica para dar origem à vida
Após isso, somos apresentados a um casal de cientistas, na Terra, em 2089. Eles encontram artes rupestres (desenhos em cavernas) em diversos pontos do planeta e provenientes de civilizações diferentes (egípcios, maias, babilônios etc.) e que viveram em períodos também diferentes, sem comunicação entre si e que representam a mesma coisa: homens venerando um deus gigante que aponta para as estrelas. Acontece que há um sistema galáctico compatível com essa formação de estrelas, extremamente distante da Terra e com o seu próprio Sol. Lá existe uma lua que, de acordo com as análises, é capaz de suportar vida. Então é para lá que eles vão.

Arte rupestre encontrada por Elizabeth Saw e Charlie Holloway, o casal do filme
Durante o trajeto entre a Terra e essa lua (LV-223) os passageiros hibernam e quem ocupa a tela é o androide David, magistralmente interpretado por Michael Fassbender. Como o percurso leva dois anos para se completar, é o androide que irá se certificar para que tudo corra bem enquanto todos dormem na criogenia. David é de longe o personagem mais interessante e paradoxal de toda a trama, mais até que os alienígenas.  Seu deslumbramento e curiosidade contrastam com a suposta frieza que preenche seu “ser”. Por mais que ele seja programado para simular emoções humanas e dessa forma facilitar a interação, muitas de suas atitudes nos levam a questionar se não existe alguma espécie de alma no robô.

O androide David (Michael Fassbender)
Falarei mais sobre isso e sobre as incógnitas que cercam essa obra de Ridley Scott na Pt.2. Leia a Continuação.
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